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O 8 de março e o reconhecimento das mulheres de terreiros

  • há 22 horas
  • 4 min de leitura

Por Ana Paula Miranda

13/03/2026 | 18:24


Em março de 2024, publiquei nesta coluna do Axé News, um artigo com Andreia Soares Pinto sobre as violações sofridas por mulheres de terreiro, com base em um levantamento realizado pelo Ginga-UFF para mostrar como essas mulheres, apesar de suas posições centrais na vida religiosa e comunitária dos terreiros, muitas vezes são invisibilizadas nas narrativas sobre o racismo religioso.


Agora, neste mês de março de 2026, retomo esse debate por outro olhar: o foco é o reconhecimento do protagonismo feminino nos povos tradicionais de terreiro.



O dia 8 de março, conhecido internacionalmente pela luta das mulheres trabalhadoras por melhores condições de vida e trabalho, igualdade de direitos e contra a violência, passou a ser também um momento para reconhecer a importância das mulheres de terreiro na vida social, cultural e política do Brasil. Por muito tempo, as principais histórias do movimento feminino foram baseadas em experiências que quase nunca incluíam as vivências das mulheres negras e, menos ainda, das lideranças religiosas dos terreiros.


Mesmo ainda sendo poucas as homenagens públicas dirigidas às ialorixás no 8 de março, iniciativas recentes indicam que o reconhecimento dessas lideranças começa a ganhar espaço nas agendas institucionais e nas iniciativas da sociedade civil, destacando seu papel central na organização, cuidado coletivo e resistência, ajudando assim a entender as várias formas de luta das mulheres no país.


Um exemplo vem de Alagoas, estado cuja história guarda uma das páginas mais violentas da repressão às religiões afro-brasileiras. Em 1912, durante o episódio conhecido como Quebra de Xangô, terreiros foram invadidos, objetos sagrados destruídos e lideranças religiosas perseguidas. Naquele contexto, a ialorixá Tia Marcelina foi agredida brutalmente e veio falecer posteriormente, tornando-se um símbolo da violência dirigida aos terreiros alagoanos. Mais de um século depois, essa memória segue sendo disputada. Hoje, movimentos das lideranças dos povos de terreiro reivindicam que uma importante avenida de Maceió, Fernandes Lima, passe a se chamar Avenida Tia Marcelina, em reconhecimento à sua história e à violência sofrida pelas comunidades naquele episódio.


Ao mesmo tempo, iniciativas públicas têm reconhecido lideranças religiosas como Mãe Miriam de Nanã, considerada a atual matriarca dos terreiros alagoanos, e Mãe Neide Oyá D’Oxum, referência na articulação das comunidades de terreiro no estado. Essas homenagens não são apenas gestos simbólicos: representam uma tentativa de inscrever na história pública aquilo que por muito tempo foi silenciado — a centralidade das ialorixás na preservação da religiosidade, da cultura e da vida comunitária em Alagoas.


Merece destaque também a 11ª Semana Mãe Ilza Mukalê, realizada em Ilhéus, na Bahia. No Dia Internacional da Mulher foi entregue o Troféu Mãe Ilza Mukalê 2026, uma homenagem a mulheres que contribuem para a construção de uma sociedade mais justa e igualitária, iniciativa promovida pela Organização Gongombira no Terreiro Matamba Tombenci Neto.


Essas distintas iniciativas – uma promovida pelo governo estadual, outra pela sociedade civil – servem para nos alertar sobre como é importante construir uma memória contemporânea. As homenagens ajudam a tornar visível algo que os terreiros sempre souberam: as mulheres estão no centro da criação e da manutenção das tradições de matriz africana no Brasil. Com isso observamos que os terreiros não são apenas espaços de culto religioso, mas territórios de cuidado, de transmissão de saberes, de organização comunitária e de proteção social.


Por isso, quando pensamos o lugar das mulheres de terreiro nas lutas contemporâneas, talvez seja necessário deslocar um pouco o olhar. As categorias ocidentais, tratadas como universais, que estruturaram boa parte das reflexões sobre o que é ser mulher nem sempre dão conta das experiências vividas nas comunidades afrodiaspóricas.


Nos terreiros, a construção do feminino está profundamente associada à memória, à oralidade e aos processos de resistência que permeiam a história da diáspora africana. São formas de liderança que não se organizam apenas em torno da reivindicação individual de direitos, mas também da responsabilidade coletiva pela continuidade da comunidade e da tradição.


Mesmo algumas contribuições do feminismo negro, decisivas para deslocar os limites do feminismo hegemônico, foram em grande medida formuladas em outros contextos da diáspora e nem sempre contemplam as formas específicas de liderança, autoridade e cuidado que estruturam a vida das mulheres nos terreiros.


Talvez por isso gostaria de destacar que, nas tradições iorubás, a liderança feminina não se restringe ao espaço doméstico ou religioso: enquanto a Ialorixá conduz a vida espiritual da comunidade, a Yalodê representa a autoridade política e social das mulheres — duas dimensões que, nos terreiros brasileiros, frequentemente se encontram na mesma liderança, quando se trata da articulação das redes de proteção aos terreiros, enfrentando o racismo religioso e dialogando com o poder público.

Talvez seja por isso que o reconhecimento dessas mulheres no 8 de março tenha um significado especial. Ele não apenas celebra trajetórias individuais, mas reconhece um trabalho coletivo que, por muito tempo, permaneceu forçosamente invisível.


Ao olhar para os terreiros, lembramos que as mulheres sempre estiveram no centro da construção de comunidades, da preservação da memória e da continuidade do axé. Reconhecer esse protagonismo é também ampliar nossa compreensão sobre o que significa lutar, trabalhar e cuidar.




Joana Bahia - AxéNews

Ana Paula Mendes de Miranda

Doutora em Antropologia (USP); Professora da Universidade Federal Fluminense; Coordenadora do Ginga; Pesquisadora do INCT Ineac.




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