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Mulheres do Axé: força, acolhimento e ancestralidade nos terreiros

  • há 2 dias
  • 4 min de leitura

Por: Ìyáloriṣá Élida Ti Ọya

04/04/2026 | 11:39


Falar sobre o Candomblé é, inevitavelmente, falar sobre a força das mulheres. Dentro das Casas de Axé, elas ocupam papéis fundamentais na preservação da tradição, na condução dos rituais e na construção da vida comunitária que sustenta o terreiro.

Historicamente, foram mulheres negras que mantiveram vivos os cultos aos orixás no Brasil, mesmo diante de perseguições religiosas, racismo e exclusão social. Foram elas que guardaram os saberes ancestrais, organizaram comunidades e transformaram os terreiros em espaços de resistência espiritual, cultural e social.


O Candomblé é reconhecido, em muitas de suas tradições, como uma religião de base matriarcal, onde o poder feminino ocupa lugar central na manutenção do Axé e na continuidade dos ensinamentos ancestrais.



A liderança de uma Iyalorisá, por exemplo, vai muito além da condução dos rituais. Ela é guardiã da tradição, orientadora espiritual, conselheira e referência para toda a comunidade.


A hierarquia feminina e a construção do Axé

Dentro da estrutura religiosa do Candomblé, as mulheres desempenham funções fundamentais para a manutenção do culto e da vida comunitária.

Entre esses papéis estão as Ekedis, responsáveis pelo cuidado direto com os orixás e pelo auxílio nas cerimônias; as Ebomis, iniciadas mais antigas que orientam e transmitem conhecimento aos mais novos; as Iaôs, que passaram pela iniciação e estão em processo de aprendizado dentro da tradição; e as Abiãs, que ainda não foram iniciadas, mas já caminham dentro da comunidade religiosa.


Cada uma dessas posições representa um processo de aprendizado, responsabilidade e compromisso com o Axé. São essas mulheres que, no cotidiano do terreiro, organizam, acolhem, cuidam, ensinam e mantêm viva a dinâmica da Casa de Axé.


O terreiro como espaço de acolhimento e reconstrução

Para muitas mulheres, o terreiro representa muito mais do que um espaço religioso. Ele se torna um lugar de acolhimento, reconstrução e fortalecimento.


Não são raros os casos de mulheres que chegam aos terreiros após enfrentarem situações de violência doméstica, abandono familiar, relações abusivas ou profundas dores emocionais. Em momentos de fragilidade, encontram na Casa de Axé um espaço de escuta, respeito e orientação.


Nesse contexto, o papel do sacerdote ou da sacerdotisa ultrapassa a dimensão ritualística. A Iyalorisá ou o Babálòrisá muitas vezes se tornam conselheiros espirituais, ajudando essas mulheres a compreender seus caminhos, fortalecer sua autoestima e reorganizar suas vidas.


A consulta oracular, por exemplo, pode representar um momento de profunda reflexão e orientação espiritual. Para muitas mulheres, esse encontro com o sagrado funciona também como um processo de cura emocional e de reencontro com sua própria força.

O terreiro educa, ensina, transforma e encaminha.


Dentro da comunidade de Axé aprende-se sobre respeito, disciplina, coletividade e pertencimento. Valores que fortalecem não apenas a espiritualidade, mas também a vida social e emocional de quem faz parte da casa.


A força das grandes mães espirituais

A potência feminina dentro do Candomblé também se revela nas grandes forças espirituais que representam o poder ancestral das mulheres.


Entre essas forças está Onilé, a grande mãe terra, princípio que sustenta toda a existência. É dela que vem o chão que sustenta a vida, os corpos, as casas e os próprios terreiros. Honrar Onilé é reconhecer que a terra é mãe e que toda vida nasce e retorna a ela.


Também reverenciamos as Iyámi, as grandes mães ancestrais, guardiãs do poder feminino primordial. São forças que representam o equilíbrio profundo da criação e observam o comportamento humano para manter a harmonia entre o mundo espiritual e o mundo material.


Entre essas energias também se encontra Opaoká, a grande mãe anciã, ligada à sabedoria ancestral e à manutenção do equilíbrio e da prosperidade dentro das Casas de Axé.


Entre as grandes mães da ancestralidade está também Nanã, senhora da sabedoria mais antiga, associada ao barro primordial da criação. É desse barro ancestral que a vida é moldada, lembrando que todos os seres nascem da terra e a ela retornam, representando os ciclos da vida e da morte.


Outra grande referência é Obá, símbolo de coragem e resistência. Guerreira que representa a dignidade e a força das mulheres que enfrentam injustiças, violências e abandonos, tornando-se um arquétipo de defesa e resistência feminina.


Também se manifesta a energia de Ewá, que representa os ciclos e as transformações da vida. Ewá simboliza as fases da existência feminina da juventude à maturidade assim como as mudanças naturais do tempo e das estações.


Entre as grandes mães do Axé também se destaca Oxum, senhora das águas doces e símbolo da sabedoria feminina. Na tradição, é lembrada como aquela que revelou fundamentos importantes da ritualística do Candomblé, inclusive ligados à feitura do iaô.


Já Oyá, conhecida como Iansã, representa os ventos, as transformações e a justiça. É lembrada como mãe daqueles que enfrentam injustiças e como símbolo de coragem diante das adversidades.


E não podemos deixar de reverenciar Iemanjá, a grande mãe das águas salgadas, protetora das famílias e símbolo do cuidado, da maternidade e da proteção espiritual.


Cada uma dessas divindades expressa dimensões diferentes da força feminina: proteção, sabedoria, justiça, transformação e acolhimento.


Mulheres que sustentam o Axé

Nos terreiros, o Axé se manifesta na coletividade, no cuidado e na ancestralidade. Celebrar as mulheres do Candomblé é reconhecer aquelas que preservam a tradição, que acolhem quem chega, que educam, que curam e que mantêm viva a espiritualidade que atravessa gerações. Porque onde existe uma mulher de Axé, existe também memória, resistência, sabedoria e força ancestral.




Ìyáloriṣá Élida Ti Ọya - AxéNews

Ìyáloriṣá Élida Ti Ọya

Sacerdotisa do Àṣẹ Alákétu Aìyè Afẹ́fẹ́, onde promove os valores, cultos e saberes ancestrais das tradições afro-brasileiras. Com uma trajetória dedicada à cultura e à religiosidade de matriz africana, ela atua como Coordenadora de Comunicação da confraria Oloyá’s e ocupa o cargo de Coordenadora Geral do evento Awo, onde contribui para a valorização e visibilidade das práticas religiosas no espaço público. Além disso, Ìyáloriṣá Élida é assessora do projeto Melodias de Terreiro, uma iniciativa voltada para a preservação do povo de terreiro. Escritora e acadêmica da APALARJ (Academia  Pan-americana de Letras e Arte do Rio de Janeiro). [+ informações de Ìyáloriṣá Élida Ti Ọya]



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Artigo de Opinião: texto em que o(a) autor(a) apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretações de fatos, dados e vivências. ** Esse texto não reflete, necessariamente, a opinião do AxéNews.


 
 
 

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