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Miguel Camisa Preta: entre a perseguição policial e os mistérios da malandragem

há 1 dia
6 min de leitura

Por: Pâmela Carvalho

✅17/10/2026 | 18:46


Alguns personagens ficam marcados na história porque tiveram suas vidas registradas em documentos oficiais, fotografias, processos e biografias. Outros sobrevivem apesar da maneira como foram registrados. Apesar do racismo, Apesar da segregação sócio-espacial, apesar dos falsos moralismos… Alfredo Francisco Soares, conhecido nas ruas como Miguelzinho Camisa Preta, pertence a esse segundo grupo.


O pouco que sabemos sobre sua vida aparece, em grande parte, nas páginas policiais dos jornais do início do século XX. Era o lugar reservado pela imprensa para muitos homens negros que viviam nos portos, nas ruas, nas rodas de capoeira e nos espaços de sociabilidade popular do Rio de Janeiro. O arquivo fala sobre eles quase sempre a partir dos estereótipos negativos, do conflito ou da morte. Cabe à memória popular reconstruir suas verdadeiras identidades.



Miguelzinho foi capoeirista, boêmio e uma figura conhecida da malandragem carioca. Seu nome de batismo era Alfredo Francisco Soares, mas foi a camisa preta que prevaleceu. Conta-se que ele usava camisas de seda e que o tecido ajudava a amortecer ou desviar os golpes de navalha. A história circula amplamente entre capoeiristas e admiradores da antiga malandragem, embora eu não tenha encontrado documentação suficiente para tratá-la como certeza. Porém, como aqui não vale apenas o que as vozes oficiais que contam as nossas histórias dizem, eu assino embaixo com a malandragem.


O detalhe continua revelador, mesmo cercado de dúvidas. A roupa do malandro fazia parte do seu modo de existir no mundo. Vestir-se bem, cuidar da aparência e caminhar com elegância eram formas de construir respeito em uma sociedade que tentava à todo custo, associar a população negra à desordem, à sujeira e à inferioridade.


Um Rio que criminalizava corpos negros

Miguel viveu durante as primeiras décadas posteriores à abolição. A escravidão havia terminado juridicamente em 1888, sem reparação, distribuição de terras ou políticas capazes de assegurar condições dignas de vida à população liberta. Dois anos depois, o Código Penal de 1890 transformou a capoeiragem em crime. O artigo 402 previa punição para quem realizasse nas ruas exercícios de agilidade e destreza corporal conhecidos como capoeiragem. A lei mencionava corridas, armas e ajuntamentos. Na prática, oferecia respaldo jurídico para a perseguição de práticas negras e para a prisão de pessoas cuja presença fosse considerada inconveniente pelas autoridades.


A capoeira representava mais do que uma técnica de luta. Ela reunia defesa corporal, musicalidade, comunicação, organização coletiva e conhecimento das ruas. Um homem pobre podia não possuir influência política ou proteção institucional, mas conhecia seu território, formava alianças e dominava o próprio corpo. Esse domínio produzia medo em uma República interessada em disciplinar a cidade e embranquecer sua imagem.


Nesse ambiente, palavras como “capoeira”, “desordeiro” e “valentão” funcionavam como acusações. A polícia e a imprensa ajudavam a fabricar o indivíduo perigoso. Quando esse homem aparecia morto, a reputação construída anteriormente podia servir como justificativa. A violência parecia consequência natural de sua vida, nunca resultado das estruturas que o perseguiam. Ler a história de Miguel exige desconfiar desse enquadramento.


Cinco tiros na Rua do Núncio

Segundo relatos publicados pelos jornais "A Noite" e "Gazeta de Notícias", Miguel Camisa Preta foi morto por volta de uma hora da madrugada de 12 de julho de 1912, na Rua do Núncio, região central do Rio de Janeiro.


O autor dos disparos foi o cabo da polícia Elpídio Ribeiro da Rocha. A inimizade entre os dois vinha de outros tempos. Elpídio havia matado outro capoeirista conhecido como Leão do Norte, amigo de Miguel. Depois desse episódio, Miguel teria jurado vingança. Os dois chegaram a se enfrentar em outra ocasião, quando Miguel foi baleado na perna e ambos acabaram na delegacia.


Na madrugada de sua morte, Miguel conversava com o comerciante Antônio Júlio Xavier quando Elpídio apareceu acompanhado de Manoel Tibúrcio Garcia. O cabo teria anunciado que um dos dois morreria naquela noite.


Miguel estava encostado em um muro, com as mãos nos bolsos. O policial afirmou que não atiraria caso ele retirasse as mãos. Miguel obedeceu. Assim que fez o movimento, recebeu um tiro na cabeça. Caído, foi atingido por outros quatro disparos, na cabeça, na mão esquerda, no ombro e no ventre.


A quantidade de tiros diz muito. O objetivo não parece ter sido conter uma ameaça imediata. O corpo continuou recebendo disparos depois de cair. A cena carrega a lógica da execução e do castigo: eliminar o homem e produzir uma mensagem para aqueles que reconheciam sua autoridade nas ruas.


Os jornais registraram a grande movimentação de pessoas no necrotério. A morte de Miguel causou comoção entre conhecidos, admiradores e personagens da vida noturna carioca. Aquele que as páginas policiais apresentavam como marginal possuía vínculos, amizades e importância para uma comunidade.


Quando o morto volta para trabalhar

A história de Miguel Camisa Preta ganha outra dimensão quando deixa o arquivo policial e entra nos terreiros. Não se sabe quando seu nome começou a aparecer em incorporações, pontos cantados e narrativas religiosas. Também não existe uma versão única sobre sua identidade espiritual. Em algumas tradições, Miguel Camisa Preta aparece como entidade individual. Em outras, o nome identifica uma falange. Há quem o conheça como Miguelzinho, Miguelin do Morro, Mané Soares ou apenas Camisa Preta. Essa diversidade faz parte da própria organização das religiões afro-brasileiras. A Umbanda não possui uma autoridade única determinando como todas as casas devem compreender uma entidade. Cada terreiro trabalha a partir de sua linhagem, de sua experiência e dos ensinamentos transmitidos por suas entidades e dirigentes.


Em muitas casas, Miguel atua na Linha dos Malandros. Pode ser associado à proteção das pessoas perseguidas, ao enfrentamento de demandas, à abertura de caminhos e à defesa de quem precisa sobreviver em ambientes hostis. Sua imagem conserva a elegância, o chapéu, a camisa escura e o gingado do capoeirista.


Nesse deslocamento de tempo e espaço, a experiência social do malandro ganha sentido religioso. O homem que precisou aprender a identificar perigos passa a orientar quem não consegue enxergá-los. Aquele que viveu cercado por inimigos trabalha na proteção. O corpo que conhecia a esquiva torna-se presença espiritual ligada à capacidade de sair de situações difíceis.


A sacralização não apaga as ambiguidades de sua vida. A Linha dos Malandros não precisa transformar seus personagens em santos dentro de uma moral cristã. Sua força nasce justamente da experiência humana, da rua, dos erros, das escolhas difíceis e do conhecimento adquirido em territórios onde a lei raramente protege todas as pessoas da mesma maneira.


A malandragem como conhecimento

A palavra malandragem acumulou sentidos muito diferentes. Pode indicar golpe, esperteza, sedução, boemia, transgressão ou recusa do trabalho regular. Quando observada a partir da capoeira e das religiões afro-brasileiras, ela também descreve uma forma de inteligência desenvolvida por quem precisa sobreviver com poucos recursos e sob permanente suspeita. Esse saber possui mistérios porque não pode ser inteiramente explicado. Parte dele está no corpo, na experiência e na capacidade de perceber uma mudança no ambiente antes que o perigo se apresente por completo.


Há também um sentido coletivo. Na história de Miguel, a memória de Leão do Norte aparece como motivo da rixa com Elpídio. A malandragem antiga era atravessada por alianças, territórios, lealdades e códigos próprios. A rua oferecia proteção por meio das relações construídas entre aqueles que não podiam contar com a polícia. Muitas vezes, a polícia representava o próprio perigo.


O que a camisa preta ainda guarda

Talvez nunca saibamos tudo sobre Alfredo Francisco Soares. Não sabemos com segurança por que escolheu a camisa preta, quando nasceu, como começou na capoeira ou em que momento se tornou entidade de culto. Até a ligação direta entre o homem documentado e todas as entidades que usam seu nome pertence ao campo da fé e das diferentes tradições dos terreiros. Essa falta de respostas não diminui a sua história. Ela mostra os limites do arquivo produzido por uma sociedade que registrava homens negros com muito mais cuidado quando pretendia prendê-los ou anunciar suas mortes.


Miguel Camisa Preta permaneceu na história (com “h”minúsculo, mas que é maiúscula em sua importância) porque outras formas de memória cuidaram de seu nome. O cabo Elpídio disparou cinco vezes contra um homem que havia retirado as mãos dos bolsos. A notícia registrou o corpo caído, mas quando Camisa Preta retorna no terreiro, ele retorna de pé.


Salve Miguel Camisa Preta.

Salve a malandragem.




Pâmela Carvalho - AxéNews

Pâmela Carvalho | Mestre em Educação

Educadora, historiadora, gestora cultural, pesquisadora ativista das relações raciais e de gênero e dos direitos de populações de favelas. É mestre em educação pela UFRJ. É coordenadora-pesquisadora da ”Casa Preta da Maré”, na Redes da Maré e representa institucionalmente a organização na secretaria executiva do Fórum Permanente pela Igualdade Racial (FOPIR) e na Coalizão Negra por Direitos. [+ informações de Pâmela Carvalho]


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