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Eu pensei que todo mundo fosse filho de Papai Noel!

Por: Yakekere Katiuscia de Yemanjá

Foto: Mario Tama/Getty Images

23/12/2023 | 15:29


Justiça alimentar e direito ao bem viver


Muitos de nós crescemos sobre as canções e o mundo de fantasia que anuncia a chegada desta parte do ano dedicada ao encontro das famílias, mas sobretudo forjada em torno de símbolos icônicos como a grande árvore cheia de presentes, o presépio com modelo exemplar de família e ele o bom velhinho com seus presentes incríveis, realizando os sonhos das cartas escritas pelas crianças.




Tudo isso poderia ser mágico, se nós não estivéssemos falando de uma realidade que chegou a 33 milhões de pessoas em estado de fome, segundo o último mapeamento da situação social no Brasil. Destas pessoas, a maioria unânime de pessoas negras, cujas famílias são lideradas por mulheres.


A figura de um bom velinho, homem branco de idade avançada, com sua longa barba e bigodes brancos sentado num lindo trono com seu mundo fantástico de presentes que chegarão à meia-noite aos lares das grandes reuniões familiares, reforçados em filmes mágicos e histórias para “ninar gente grande”, logicamente, se opõem aos becos e vielas das ruas empoeiradas onde o chão irregular abriga casas na corda bamba sem chaminés com seus pretos e pretas velhas, já não estão sentades em seus tronos, mas ocupando o vai e vem intenso da busca pelo sonho da comida diária.


Os presentes se contrastam com ausentes corpos, pois mesmo sendo velhinhos e velhinhas, o trono tirado de seus antepassados, faz com que eles não possam se sentar, quiçá descansar a cabeça, que ferve na busca por dignidade.


Fico realmente, hoje, avaliando esses sonhos natalinos que nos faz embebedar a dor e as carências, para entender que lá atrás, nós comunidades negras e periféricas, ficamos em acreditar e sentir raiva deste imaginário de natal. Temos fome! Vazios pratos, vazias as árvores, que para nós nada de pinheiros ornamentados de presentes, para nós arvores seriam mangueiras e goiabeiras de onde pendurados podíamos nos alimentar, mas até isso foi tirado. Aqui o “Esqueceram de mim” é real.


Lembro que acreditei em Papai Noel, mas desacreditei com a mesma rapidez, ao perceber que “seja rico ou seja pobre, o velinho… não, “meu Papai Noel não vem!”, ele teimava em não vir.


Não quero aqui acabar com o espírito natalino dos sonhos de ninguém, mas acredito que muitos de nós passamos da hora de parar de contar certas histórias que não pertence para os nossos e nossas. Meu Papai Noel nunca existiu. Existia uma mulher gigante que embalava essas histórias para não nos ver triste, pois o mundo a nossa volta insistia em vender uma realidade inalcançável.


Quantas crianças podem de fato escrever uma carta a Papai Noel? Temos um número expressivo de crianças fora da escola, seja pela não matrícula seja pela não permanência. E olha que as unidades escolares são espaços de garantia alimentar. Jovens negros são os que tem mais evasão escolar, nossos meninos estão por aí, mal escrevendo seus nomes, mal contando suas histórias, tantos sendo mortos pela violência do estado racista.


Eu sei que todos os anos aparecem projetos maravilhosos para dizer que crianças negras e periféricas estão enviando cartas e que alguns podem adotá-las para que esse natal fantasioso aconteça. Mas venham cá, ficaremos escondendo de todas, todos e todes que são os verdadeiros protagonistas desses acolhimentos por um ideia de filme dos sonhos da branquitude?


Eu também já me embebi nesta estratégia de ilusão, mesmo sabendo que o velinho não tinha vindo a minha vida toda. Eu também acreditei que alimentar esses sonhos podia ser estratégia possível, que toda criança deveria desfrutar de tal imaginário.


Numa das primeiras ações do nosso terreiro, vestimos um filho de Papai Noel e fomos a uma casa próxima levar nossos afetos pretos ancestrais. Mas quem visitou aquela casa, aquelas vidas foi Obaluaê, assentado no corpo daquele filho, que além de feliz pela honradez do papel carregaria e espalharia mais que pensava!


Depois daquele dia, estranhamente, nunca mais levamos nenhum objeto material àquela família, inclusive eles deixaram de falar conosco. Mas a casa deles se modificou em estrutura, as crianças tinham o que comer, trabalho, mesmo que fosse bico, para quem estava sem. Nosso milagre de natal foi constatar o poder do grande Orixá da Terra, que senta em trono jamais tirado, nos tira do sofrer, traz cura! Curas ancestrais tão incompreendidas pela sociedade e até mesmo por nós de terreiro.


Não foi mágica! Foi magia de preto, foi ensinamento da grandeza de quem teve Obaluaê no seu chão. E longe de dizer que não há carências lá, mas um caminho foi aberto. Isso é história que a gente não ouve, mas está longe de ser a primeira, quiçá a última.


Não temos Papais e Mamães Noel, nós povos da diáspora, das comunidades negras de tradição afro-brasileira, as de terreiro, temos as casas de axé fazendo vaquinha para manter cestas básicas para comunidade, temos estas mesmas casas alimentando o ano todo tantas vidas, temos mulheres firmes cuidando da molecada, promovendo saúde popular, fazendo política alimentar, colocando nossa juventude nos espaços de legitimidade ocidentocêntrica para discutir direitos e saberes, e cuidando para que não adoeçam com as injustiças que há nesses espaços.


Esse texto não é sobre o natal nem suas estratégias consumistas, é sobre o poder das sabedorias tradicionais construído no fio da desumanização juntamente para a permanência de humanidade e dignidade. Também não é sobre criticar ações natalinas feitas por diversos movimentos sociais, de modo algum! Esse texto é sobre nós, é contrário ao imaginário que nos apaga. Como diria Conceição Evaristo, nossa escrevivência não pode ser lida como histórias para ninar os da casa grande, mas sim para incomodá-los em seus sonhos injustos.


É tempo da gente lembrar, valorizar e respeitar o tanto que é feito pelos não Papais-Noel do Brasil de memória preta e legado ancestral.


O velinho pode não vir, mas o colo das mães ancestrais, o oxê da justiça e fartura do caçador, ah… esses não nos abandonam. Feliz resistência para todes nós.





Katiuscia de Yemanjá - AxéNews

Yakekere Katiuscia de Yemanjá

IYÁ Katiuscia de Yemanjá, mulher de terreiro, mãe, Yakekere do Rei Xangô, da família Òbá Labi, corpo-memória cabocla-nordestina ; forjada pela força e o afeto das muitas mulheres. “De anel no dedo e aos pés de Xangô”, mestre em linguagens pela UERJ, professora da educação básica pública e periférica, pesquisadora e defensora dos saberes ancestrais na diáspora. [+ informações de Yakekere Katiuscia de Yemanjá]



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