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A (in)visibilidade das violações contra as mulheres de terreiro

Por: Ana Paula Mendes de Miranda e Andreia Soares Pinto

Foto: Reprodução

09/03/2024 | 21:25


O Ginga é um grupo de pesquisa sediado na Universidade Federal Fluminense dedicado a pesquisar os conflitos de natureza étnico-racial-religiosa, que incluem as situações chamadas comumente de intolerância religiosa e/ou racismo religioso, bem como as formas de mobilização política para reivindicar o reconhecimento de direitos.





Sendo o mês de março um mês importante para mulheres e terreiros optamos por analisar como as diversas formas de agressões enfrentadas pelas mães de santo e adeptas de religiões de matriz africana são contadas nas mídias, por meio de uma pesquisa no Google, em busca de redes sociais e por meio de nossos contatos pessoais.

Foram encontradas 1.021 publicações e 1.240 eventos, no período de 2008-2023, destacando-se 272 relacionadas a 160 mulheres de terreiro, que totalizam um universo de 356 eventos.


O levantamento considerou publicações e eventos de todos os estados brasileiros e somente quatro estados não apresentaram resultados: Pará, Acre, Tocantins e Ceará. Porém, isso não representa ausência de conflitos, mas sim de notícia publicada sobre as violações.


Os relatos evidenciam agressões físicas, destruição de objetos sagrados e expulsão dos territórios religiosos, muitas vezes perpetradas por traficantes evangélicos armados. Outra parte significativa de relatos descreve os “vizinhos/vizinhança” e as “pessoas evangélicas” como potenciais agressores. Lembramos aqui do caso da religiosa, Maria da Conceição (Nova Iguaçu – RJ), que, em 2017, no caminho para o mercado foi xingada e apedrejada pela vizinha.


A centralidade da teologia da batalha espiritual contra religiões afro-brasileiras expõe as mulheres de terreiro a situações de risco. Lembramos aqui dos casos da Ialorixá Carmem de Oxum, obrigada por sete traficantes evangélicos, armados com barras de ferro e armas de fogo, a destruir seu próprio terreiro situado na comunidade Buraco do Boi (Nova Iguaçu - RJ), em 2017, e de Mãe Bernadete, líder quilombola, que foi assassinada em 2023 com 12 tiros em Simões Filho, na Região metropolitana de Salvador (BA).


A violação dos direitos dos terreiros, historicamente enraizada por uma demonização das práticas afro-brasileiras, reflete uma memória coletiva de vulnerabilidade, afetando seus seguidores, seus símbolos e territórios sagrados. Não podemos deixar de mencionar que tudo isso está ocorrendo em meio à chamada “nova onda conservadora”, ideologia inspirada na supremacia branca estadunidense, que mais uma vez ataca as práticas dos povos tradicionais de terreiro.


Essa interseção entre política e religião se manifesta em “cruzadas” político-religiosas contra religiões de matriz africana, perpetuando uma moral econômico-racial que negocia crenças, vidas e bens nos territórios populares.




Joana Bahia - AxéNews

Ana Paula Mendes de Miranda

Doutora em Antropologia (USP); Professora da Universidade Federal Fluminense; Coordenadora do Ginga; Pesquisadora do INCT Ineac.




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