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Entre o aperto de mão e a consciência coletiva: o grande desafio político do povo de terreiro

  • 8 de mai.
  • 5 min de leitura

Por: Pai Sid

8/5/2026 | 20:02


Existe uma pergunta que o povo de terreiro precisa começar a fazer olhando no fundo dos próprios olhos: Estamos fortalecendo nossas comunidades… ou apenas fortalecendo nossas conexões?


Porque talvez um dos maiores desafios que atravessamos hoje não esteja apenas na intolerância religiosa, no racismo estrutural ou na histórica tentativa de apagamento das nossas tradições. Talvez o desafio mais profundo esteja na forma como temos nos relacionado com o poder, com a política e até mesmo uns com os outros.


Hoje o povo de terreiro ocupa espaços que durante muito tempo nos foram negados. Estamos nas universidades, nas audiências públicas, nos conselhos, nas secretarias, nos debates legislativos, nas políticas culturais e nos espaços de construção de políticas públicas.



E isso não nasceu da boa vontade de ninguém, nasceu da luta, do sangue dos nossos ancestrais, das casas invadidas, dos tambores silenciados, da perseguição policial, da criminalização das nossas crenças e da resistência dos mais velhos que protegeram seus fundamentos mesmo diante da violência, do medo e das tentativas constantes de apagamento da nossa ancestralidade. Cada espaço que hoje ocupamos custou caro para o povo preto e para o povo de terreiro.


E talvez por isso precisemos lembrar de uma coisa fundamental: o que qualquer político faz pela nossa comunidade não é favor! É obrigação.


Porque quando um gestor público constrói políticas para o povo de terreiro, ele não está “ajudando”. Ele está cumprindo o dever constitucional de garantir direitos, combater o racismo religioso e assegurar cidadania para comunidades que historicamente foram marginalizadas pelo próprio Estado. Precisamos tomar cuidado para não transformar direitos em gratidão eterna.


O povo de terreiro não pode agir como quem deve submissão por aquilo que já deveria ser garantido por justiça. Reconhecer quem constrói políticas públicas importantes é necessário. Valorizar quem dialoga com nossas pautas também é importante. Mas uma coisa é reconhecimento político. Outra coisa é dependência. Porque nenhum mandato é maior do que a nossa ancestralidade.


Nenhum projeto pessoal pode estar acima da coletividade.


O povo de terreiro sempre foi político. Quando uma casa acolhia alguém com fome, aquilo era política; quando um terreiro organizava solidariedade dentro das comunidades negras abandonadas pelo Estado, aquilo era política; quando uma iyalorixá ou um tateto defendia seu território contra perseguições, aquilo já era política. O terreiro sempre foi um espaço de reorganização da vida negra, de proteção comunitária, cuidado coletivo e resistência ancestral.


As pesquisas sobre povos tradicionais de matriz africana mostram que os terreiros historicamente funcionaram e funcionam, como territórios de acolhimento, proteção, transmissão de saberes, segurança alimentar, cuidado comunitário e preservação da memória africana em meio à violência do racismo e da escravidão. Nunca foram apenas espaços religiosos. Foram quilombos espirituais e comunidades organizadas.


E talvez esteja justamente aí uma das maiores lições que precisamos recuperar: o terreiro nunca foi construído para alimentar individualidades.


Na tradição bantu, especialmente dentro da concepção de muntu, ninguém existe sozinho. A pessoa só se realiza plenamente através da comunidade, da ancestralidade e do pertencimento coletivo. Os mais velhos sempre ensinaram que ninguém sustenta axé sozinho. E talvez seja justamente isso que estejamos esquecendo.


Estamos vivendo um tempo em que muitas pessoas confundem articulação política com submissão elegante. E isso é perigoso.


Porque existem correntes que não chegam mais em forma de ferro. Algumas chegam em forma de promessa, de convite, de favor, de fotografia e de aproximação conveniente. A subserviência moderna muitas vezes vem disfarçada de parceria.


E é aí que mora um dos maiores desafios do povo de terreiro neste momento histórico: como dialogar com a política sem vender nossa autonomia?


Porque precisamos, sim, ocupar espaços institucionais. Precisamos disputar orçamento público, políticas culturais, regularização dos nossos territórios, proteção contra o racismo religioso, acesso à saúde, educação e segurança alimentar. Quem decide política pública decide quem permanece invisível e quem passa a ter direitos reconhecidos.


Mas precisamos entender definitivamente: não devemos favor por aquilo que é nosso por direito. Quando uma política pública chega ao povo de terreiro, ela não é presente. Ela é reparação histórica mínima diante de séculos de exclusão.


Ser apartidário não significa ser apolítico. O povo de terreiro não pode abrir mão da política porque sempre foi alvo dela. A ausência de representação também é um projeto político — e historicamente tentaram nos empurrar exatamente para esse lugar: silêncio, invisibilidade e marginalidade.


O problema começa quando o coletivo passa a servir interesses individuais. Quando a comunidade vira escada. Quando a luta ancestral vira moeda de troca. Quando o povo é lembrado apenas em momentos de conveniência.


Precisamos reaprender a reconhecer o valor do outro sem abrir mão do nosso próprio valor. Isso é fundamental.


Porque durante muito tempo ensinaram ao povo preto que reconhecimento era favor, que acesso era benevolência e que ocupar determinados espaços dependia de autorização. Mas nós não chegamos até aqui pedindo licença. Nós chegamos até aqui porque os nossos ancestrais sobreviveram. E sobreviveram sem abrir mão da dignidade.


Talvez esteja faltando ao povo de terreiro voltar a olhar mais para os olhos dos ancestrais e menos para os holofotes.


Porque a nossa altivez não nasce do poder institucional. Ela nasce da memória, da firmeza dos mais velhos, da dignidade de quem construiu comunidade mesmo sem quase nada e do entendimento de que axé não é vaidade. Axé é responsabilidade.


Precisamos nos perguntar com honestidade: estamos construindo algo para a comunidade ou apenas para meu interesse? Estamos formando novas lideranças ou apenas reproduzindo dependências? Estamos fortalecendo o coletivo ou apenas buscando proximidade com o poder? Vou aceitar que alguém que não conhece meu caminho e nem o caminho do meu ancestral diga pra onde devo ir e com quem posso estar?


Precisamos voltar a entender que nenhum aperto de mão vale mais do que nossa liberdade. Nenhuma aproximação política vale mais do que nossa autonomia comunitária. Nenhum cargo, nenhuma promessa e nenhum interesse pessoal pode estar acima do futuro do nosso povo.


E talvez o grande desafio agora seja exatamente esse: continuar dialogando sem se ajoelhar, continuar ocupando espaços sem perder a essência e continuar construindo pontes sem esquecer quem somos. Eu aperto qualquer mão, mas não solto as mãos de quem me trouxe até aqui.


Porque, no fim das contas, o que mantém o povo de terreiro vivo não é o poder.

É a comunidade. E enquanto houver comunidade, haverá ancestralidade caminhando conosco.




Pai Sid - AxéNews

Pai Sid

Pai Sid Soares é pai pequeno do CENSG - Centro Espírita Nossa Senhora da Guia em Volta Redonda RJ. Co-presidente da Comissão de Terreiros Mojuba, no Sul Fluminense que realiza um trabalho de fomento das políticas públicas para o povo de santo. [+ informações de Pai Sid]



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