Editorial sobre novo algum de Anitta: EQUILIBRIVM II celebra um Brasil que nunca deveria ter sido silenciado
- 24 de jul.
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O novo album de Anitta foi lançado no dia 23 de julho

✅ 24/7/2026 | 18:33
Há discos que nascem para ocupar o topo das plataformas digitais. Outros chegam para provocar conversas. EQUILIBRIVM II, novo álbum de Anitta, lançado em 23 de julho, consegue fazer as duas coisas ao mesmo tempo: conquista o público sem abrir mão de um discurso artístico que olha para as raízes da cultura brasileira e para a espiritualidade afro-brasileira como fontes legítimas de criação.
Mais do que reunir um elenco impressionante de convidados, Anitta constrói uma obra que dialoga com diferentes Brasis. Em um mercado acostumado à repetição de fórmulas, ela aposta em encontros improváveis e poderosos. Maria Bethânia empresta sua grandeza a "Ogum Me Rodeia", Alceu Valença colore "Não Me Cutuca" com sua identidade nordestina, Mart'nália leva sua leveza para "Feitiço", enquanto Alexandre Carlo, MC Tha, Mestrinho, Brô MC's, Katú Mirim e tantos outros ampliam o mosaico musical do álbum.
Mas talvez o gesto mais significativo esteja onde muitos ainda insistem em não olhar.
Ao trazer canções como "Ogum Me Rodeia", "Abre Caminho", "Deus Mãe", "Contemplação" e "OKE", Anitta faz da ancestralidade um elemento central da narrativa do disco. Não como adereço estético, nem como estratégia de marketing, mas como parte da identidade artística que vem sendo construída desde o primeiro EQUILIBRIVM. É um trabalho que naturaliza referências às tradições afro-brasileiras, às suas filosofias e aos seus símbolos em um espaço historicamente ocupado por estereótipos e preconceitos.
A participação do Grupo Ofá, formado por integrantes da comunidade do Terreiro do Gantois, na faixa "Contemplação", talvez represente um dos momentos mais simbólicos do projeto. Ao levar vozes que nascem dentro de um terreiro para um álbum pop de repercussão internacional, Anitta rompe fronteiras entre o mercado fonográfico e a preservação de um patrimônio cultural que durante décadas foi invisibilizado.
Em tempos de intolerância religiosa, esse movimento ganha um significado ainda maior. O álbum não pede licença para reconhecer a contribuição das religiões de matriz africana à formação da identidade brasileira. Pelo contrário: apresenta esses elementos com respeito, beleza e naturalidade, demonstrando que a cultura afro-brasileira não pertence às margens da sociedade, mas ao centro da produção artística nacional.
Também chama atenção o cuidado visual do projeto. A fotografia, a direção de arte e a estética que acompanham EQUILIBRIVM II conversam diretamente com a proposta musical. Cada imagem parece reforçar a ideia de equilíbrio entre corpo e espírito, tradição e contemporaneidade, fé e arte, criando uma experiência que ultrapassa a simples audição e transforma o álbum em uma obra audiovisual.
O sucesso imediato nas plataformas digitais confirma que o público está disposto a consumir trabalhos que desafiem padrões. A excelente recepção da crítica demonstra que qualidade artística e alcance popular não são caminhos opostos. Pelo contrário, podem caminhar lado a lado quando existe coerência entre conceito, repertório e execução.
Anitta já não precisa provar que é uma estrela global. Isso ela fez há muito tempo. O que EQUILIBRIVM II evidencia é algo ainda mais importante: a artista compreendeu que internacionalizar a música brasileira não significa esconder suas origens, mas apresentá-las com orgulho.
Quando um álbum pop abre espaço para a ancestralidade, para os tambores, para os cânticos, para a força dos orixás e para artistas que representam diferentes territórios culturais do Brasil, ele deixa de ser apenas um sucesso comercial. Torna-se um manifesto em favor da diversidade, da memória e da riqueza de um país cuja maior potência sempre foi a pluralidade de suas vozes.
E talvez seja justamente esse o maior equilíbrio encontrado por Anitta: mostrar ao mundo que o futuro da música brasileira passa, inevitavelmente, pelo reconhecimento de suas próprias raízes.

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