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Como as religiões de matriz africana contribuem (ou não) para conservar o respeito à diversidade

Por: Alexandre de Oxalá

09/06/2023 | 18:29


O preconceito é um fardo que confunde o passado, ameaça o futuro e torna o presente inacessível. (Maya Angelou)


É indiscutível e notório que a comunidade LGBTQIAP+ tem, de forma paulatina, conseguido galgar degraus sociais, políticos e jurídicos, em busca de direitos e garantias que lhes deveriam ser asseguradas até pela previsão constitucional, o que demonstra a distância que existe nesta temática, entre fato (que esta comunidade sempre existiu e sempre existirá), valor (a busca de igualdade de fato, não-discriminação, não-agressão física, moral ou pessoal) e norma* (a formulação de leis e políticas públicas que garantam a esses indivíduos os mesmos tratamentos destinados a cisheteronormativos), garantindo a todos, todas e todes o exercício pleno da cidadania, um dos pilares de uma sociedade democrática e plural.




Neste mister, foi e é fundamental o papel das Unidades Tradicionais de Terreiro (UTT) no acolhimento e orientação a essas pessoas, dando-lhes uma palavra amiga, consolo frente às dificuldades sociais e pessoais, fornecendo não raro uma estrutura familiar e de ajuda mútua em tempos nos quais o preconceito imperava de forma mais cruel e impiedosa, mesmo entre parentes consanguíneos, afastando assim a noção da Divindade como um ser sexista punitivo e impiedoso, mostrando que sim, havia um Deus, um Todo que acolhia as pessoas como elas eram independente de quem e como amavam, nascendo assim verdadeiros espaços de resistência, nos quais inclusive havia a possibilidade de galgarem passos iniciáticos chegando ao sacerdócio, recebendo o mesmo respeito que um heterossexual na mesma posição, o que não seria concebível na maioria dos credos existentes. Esta interação indivíduo-culto-UTT vai ao encontro das novas definições de família, trabalhadas no Direito Civil e também reconhecidas pela Organização Mundial de Saúde, de forma a reconhecer diferentes dinâmicas de grupo como entidade familiar, o que é louvável e necessário para a proteção dessas pessoas.


Por outro lado, também podemos ver, pontualmente, episódios de discriminação contra esta comunidade, notadamente em questões de gênero, orquestrados muitas vezes por autoridades no culto, cuja fala influencia na gestão de várias casas, fechando muitas vezes a mente de dirigentes mais antigos para as novas demandas da sociedade atual, uma vez que certos debates não tinham qualquer espaço há cinquenta ou sessenta anos simplesmente por desconhecimento ou pelo fato de aqueles sacerdotes e sacerdotisas optarem por não expressar sua posição frente a polêmicas. Curiosamente, estes e estas, aos quais devemos o máximo respeito e reverência às suas caminhadas dentro do culto e seu papel também de resistência no mesmo, olvidam que o mesmo fenômeno de elevar uma categoria socialmente inferiorizada e muitas vezes apagada pelo machismo patriarcal, fez o mesmo pelas mulheres, contrapondo-se desta vez não à discriminação sexual e sim à misoginia potencializada pelo patriarcado muitas vezes tóxico da época, constituindo-se em um verdadeiro microcosmo feminista, o que exalta desde o início o potencial do culto de matriz africana em romper paradigmas e acolher sujeitos historicamente discriminados e relegados a papeis inferiores- é mister lembrar que a lei que considerava a mulher uma extensão passiva do marido só foi mudada em meados da década de 90, com a promulgação da nova Constituição e, em 2002, com o novo Código Civil, que garante a homens e mulheres o mesmo tratamento jurídico e social, mesmo ainda sendo muitas lutas necessárias para fazer dessas palavras fatos em sentido estrito.


Muitos dirigentes mais conservadores e muitos pensadores e pesquisadores que estudam nossas tradições se apoiam nos escritos da antropóloga norte-americana Ruth Landes, que em sua obra “A Cidade das Mulheres” descrevia a participação de homossexuais no candomblé com o único objetivo de “serem mulheres”, “meramente interessados em promoção pessoal” e “oriundos de grupos de proscritos e malandros” (uso intencionalmente expressões literais do texto da autora), citando inclusive nomes de grandes sacerdotes de grande importância para a manutenção do Candomblé, em particular, até os dias atuais. Saliento, para evitar choques científicos e culturais, que esta obra foi escrita antes da década de quarenta em uma Bahia majoritariamente ruralista, ainda se reinventando da abolição da escravatura e analisando o cenário no qual surgiam os primeiros homens iniciados como manifestantes das divindades, com muitos depoimentos de matronas que se opunham a esta prática, o que pode ter contribuído para o viés da obra em questão. Outrossim, a concepção majoritariamente eurocêntrica, branca e colonial na qual nasce o Candomblé como organização sociopolitico-cultural também em muito influencia estas categorizações sociais e até mesmo pessoais e psicológicas da época.


A evolução natural das sociedades e a impossibilidade de continuar ignorando a comunidade LGBTQIAP+ acendeu vários debates ao longo destes quase setenta anos de intervalo e, atualmente, muito se debate sobre a inclusão de indivíduos transgênero e intersexo nas UTT, gerando debates muitas vezes acalorados e ainda muitas vezes inconclusivos e baseados em opiniões e concepções pessoais, baseadas na interiorização da heterossexualidade como norteadora dos espaços externos e mutas vezes internos de axé, o que é compreensível haja vista que muitas normas que interiorizamos pressupõem que todos são cis-heterossexuais, regulando relações interpessoais, o que acontece inclusive entre dirigentes homoafetivos, pois somos todos frutos desta sociedade, em uma última análise e nem todos se propõem a um trabalho de desconstrução de valores e ideias, imprescindível para a evolução enquanto seres pensantes e membros de uma sociedade mutante e plural.


Fica aqui um modesto questionamento: até que ponto podemos pensar a nossa religião usando os mesmos questionamentos de quase um século. Não nos opomos, de forma alguma, à manutenção dos dogmas e pilares trazidos pelos nossos ancestrais às custas de lágrimas e sangue, porém houve vários momentos em que esses confrontos ideológicos foram necessários, superados e incorporados ao modus operandi de nossa Religião: a admissão de homens enquanto “sujeitos de transe” no Candomblé (com exceções), a validade de introdução de utensílios domésticos modernos nas cozinhas, a mudança do padrão de vestimentas (sem contar aqui os exageros e deturpações eventualmente vistos), a necessária mudança no tempo de reclusão do neófito em virtude da vida moderna; então por que não receber estes filhos e filhas que são tão necessitados de amor, carinho e paz espiritual e mental, como todos nós. Talvez nosso apoio como comunidade mude a realidade da expectativa de vida de uma pessoa transgênero para mais do que os 35 anos estimados, o que era admissível na Idade Medieval, mas jamais nos dias atuais; até que ponto a indumentária litúrgica influencia no trato espiritual com a pessoa transgênero, roupas estas indubitavelmente criadas a partir de padrões em nada africanos e sim brancos e europeus, expressando a moda das cortes reais da época; sim, há papeis de gênero nas religiões de matriz africanas e isso não mudará, porém, usando os argumentos evocados pelos mais conservadores, que também merecem nossos respeitos como nossos irmãos mais velhos, toda mulher trans vai cultuar as Ajé? Todo homem trans vai ser vinculado ao culto de Egungun? Todas as pessoas transgênero necessitarão ser iniciadas? Será que a questão das vestes é importante para todos? Será que não podemos confiar na voz de nossas Divindades, expressada pelo Jogo de Búzios, para sabermos conduzir cada caso?


Que as Divindades nos deem sabedoria, mão firme e, sobretudo, Axé para guiarmos a todos, todas e todes nos mistérios de Orixá, nos limites que serão determinados pelo Sagrado a cada um.






Átila Nunes - AxéNews

Babalorixá Alexandre de Oxalá

Alexandre de Oxalá é iniciado no candomblé desde 2009 pela Doné Cristiane de Oxum, neto do saudoso Doté Luís de Oya do Axé Omo Inã, de nação nagô-vodun em Anchieta, RJ; iniciado no Culto a Ọ̀runmila em 2012 pelo Babalawo Ifanimorá, Prof Fernandez Portugal Filho e sacerdote do Xwe Fa Sèn, em Nova Iguaçu (RJ).

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