Caminho não se consome, se constrói
- 8 de mai.
- 4 min de leitura
Por: Mãe Kátia

✅ 8/5/2026 | 15:11
“Kíákíá kì í jẹ́ kó pé.”
O que é feito com pressa não se sustenta por muito tempo.
Tenho pensado muito sobre o lugar do sacerdote nos dias de hoje. A modernidade trouxe acesso, informação, visibilidade, mas também trouxe um nível de desafio que, para quem conduz, é real.
Muitos ainda olham para mim e acreditam que sou nova. Mas minha caminhada começou na década de 90, quando iniciei minha vivência na Umbanda. São mais de 28 anos dentro da religião, acompanhando processos, formações, quedas e reconstruções.
Na minha época, não tínhamos esse excesso de informação. E isso fazia diferença. As incorporações eram mais genuínas, o desenvolvimento mais profundo. Existia menos interferência externa e mais escuta interna.
Hoje, um dos grandes desafios é ajudar um filho a não incorporar uma referência ou caricatura do YouTube ou do TikTok. E isso não é uma crítica à modernidade, é um chamado à consciência. Porque hoje nós temos mais acesso, mais caminhos, mais possibilidades. E isso, por si só, não é um problema.
A modernidade não destrói o caminho, ela revela como cada um se posiciona diante dele. Quem tem direção, aprofunda. Quem não tem, se perde no excesso.
Da mesma forma, o passado não era perfeito. Havia limitações, havia falta de acesso, havia erros. Mas havia algo que hoje está mais escasso: permanência. E talvez seja exatamente isso que precisa ser olhado com mais honestidade. Vivemos um tempo em que existem muitos “mestres” e poucos alunos. E isso revela um desalinhamento.
Porque na tradição, ninguém deixa de ser aluno. Aprender exige profundidade, repetição, silêncio, correção e tempo.
Mas o que tenho visto, com frequência, são pessoas que não buscam sua raiz ancestral, buscam aquilo que atende às suas vontades e ego. E isso muda completamente o eixo do caminho.
Hoje, muitos tratam a espiritualidade como escolha de vitrine: aqui não está dando, então vou ali, porque parece melhor. E assim, vão trocando de casa como trocam de roupa. Sem criar raiz. Sem sustentar processo. Sem compreender que caminho espiritual não se constrói na troca constante.
E isso não acontece só dentro do terreiro. A vida é assim. Relacionamentos exigem permanência. Trabalho exige constância. Família exige construção. Tudo o que é verdadeiro pede esforço, enfrentamento e continuidade.
Mas hoje, muitas pessoas estão condicionadas a sair quando algo não agrada, e levam esse mesmo comportamento para o caminho espiritual.
E tem um ponto ainda mais delicado que tenho visto com frequência: Pessoas deixando suas casas por causa de outras pessoas. Saem por conflito com irmãos. Saem por desconforto com convivência. Saem por comparação, por ruído, por aquilo que ouviram. E, nesse movimento, esquecem o essencial: Você não entrou em uma casa por causa de pessoas. Você entrou por causa de um caminho.
Se o outro erra, o erro é do outro. Mas a sua construção continua sendo sua responsabilidade. Quando você rompe por causa de terceiros, você não está resolvendo, você está interrompendo o seu próprio processo.
Eu sei que existem sacerdotes que não deveriam ocupar o lugar que ocupam. Isso é real e precisa ser dito com responsabilidade. Mas também preciso dizer com a mesma verdade: tenho visto muitos sacerdotes sendo diminuídos por pessoas que um dia se sentaram à sua mesa, comeram do mesmo prato, foram acolhidas, e, na primeira frustração, transformam o vínculo em crítica.
Vejo filhos chegando e falando mal de quem os iniciou. Vejo pessoas falando, falando, falando… sem perceber o que isso revela sobre elas mesmas. E isso não é apenas sobre religião. É sobre caráter.
Alguns vão dizer: Mas mãe, hoje temos mais conhecimento, antes as pessoas eram ignorantes e ficavam presas pelo medo. Eu escuto isso. Mas também observo que, mesmo com tanta informação, o medo, a ilusão e a falta de direção continuam existindo.
Então não é sobre falta de acesso. É sobre falta de raiz. Falta de lealdade. Falta de fidelidade. Falta de amor ao que se faz.
Hoje, qualquer decepção vira rota de fuga. Qualquer desconforto vira justificativa para sair. Mas caminho espiritual não é feito só de acolhimento. Ele também exige correção, limite e maturidade para lidar com o que nem sempre agrada. E é exatamente nesses momentos que Ìwà Pẹ̀lẹ́ se revela. Não é quando tudo está bem, é quando somos contrariados.
Se a pessoa não sustenta isso, ela não aprofunda. E quem não aprofunda, vive em movimento, mas não constrói direção.
Òrì precisa de estabilidade. Àṣẹ precisa de continuidade. Sem isso, o que existe é apenas sensação de caminho. E aqui entra um ponto que precisa ser assumido com responsabilidade individual: Quando você não sustenta um caminho, não é o terreiro que você abandona, é o seu próprio processo que você interrompe. E toda interrupção cobra um preço. No tempo. Na direção. Na construção do seu Òrì.
Eu não escrevo isso para apontar o erro de ninguém. Escrevo porque vejo, todos os dias, caminhos sendo enfraquecidos por esse comportamento. E isso precisa ser refletido.
Então reflita com honestidade: Você está sustentando um caminho que fortalece o seu Òrì, ou apenas buscando lugares que não te confrontem?
Porque, no final, não é a quantidade de casas que você conhece que sustenta sua caminhada, é a raiz que você cria onde decide permanecer.

Mãe Kátia
Mãe Kátia é sacerdotisa dirigente do Templo Luz do Amor Divino, Ìyálórìṣà coroada na Umbanda e iniciada nos cultos afro-brasileiro e tradicional Yorubá. Além de ser a fundadora do Projeto Social Mensageiros do Amor, que já atendeu mais de 300 famílias proporcionando a melhoria da qualidade de vida em suas comunidades e levando dignidade, respeito e humanidade, a Ìyálórìṣá tem um grande histórico acadêmico: possui formação em psicanálise com ênfase na ciência da religião e nas relações do homem com o universo consciente e inconsciente e graduação em metafísica da saúde, cromosofia, cromologia e em cromoterapia. [+ informações de Mãe Kátia]
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Artigo de Opinião: texto em que o(a) autor(a) apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretações de fatos, dados e vivências. ** Esse texto não reflete, necessariamente, a opinião do AxéNews. |

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Maravilhosa reflexão. Gratidão. 🌹