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À Meia noite com Anitta: o Brasil se dança com tambor

  • 20 de abr.
  • 4 min de leitura

Por: Joana Bahia

Foto: Instagram/Anitta
Foto: Instagram/Anitta

20/4/2026 | 07:39


Muitos artistas evocam elementos da religiosidade afro seja de forma direta porque são iniciados, ou seja, por identificação com uma afro diáspora. Nem todos esses artistas são iniciados formalmente nas religiões. Temos aqueles que tem prática direta, influência cultural ou faz uso estético que nos evoca uma ideia afro. Não vou abordar todas essas variáveis.


No Brasil temos a conjugação entre religião e música desde a primeira república, quando no Rio de Janeiro se formou o campo musical e as primeiras gravações eram quase em sua totalidade relacionadas a cosmologia afro. No Brasil temos Maria Bethânia, Daniela Mercury, Alcione, Carlinhos Brown, Gilberto Gil, Ivete Sangalo, Clara Nunes, Zeca Pagodinho, Margareth Menezes, Fabiana Cozza, MC Tha, MC Cabelinho, Luedji Luna, Xênia Franca, Maju e muitos artistas. É difícil de nomear quantos artistas temos que trabalham com a mística afro religiosa. Pois teria que voltar a um mapa musical no tempo. Boa parte da classe artística negra se constituiu como cidadã no mundo a partir da relaçãocom a música e religiosidade. No mundo da afro diáspora, os exemplos são vários.



Os cubanos Célia Cruz, Glória Estefan, La India, Orishas, Ibeyi, Dayomé Arocena.


Cardi B, rapper e compositora, pertence a santeria, comum na República Dominicana,

local de sua origem, coroada em Olokun e, em shows, já prestou tributo a Oxóssi. Esses

são os artistas mais próximos a religião, entretanto há muitas referências a mesma por

artistas não religiosos e seus símbolos circulam pelo campo musical de maneira muito

mais ampla. Quantas vezes olhamos elementos afro em artistas que não são, mas pela

proximidade com Brasil os associamos a tal. Como as brincadeiras feitas a Beyoncé

quando deu uma paradinha na Bahia? Enfim, essas associações são variadas e

múltiplas. Falemos da ekedi Larissa, vulgo Anitta e suas encruzilhadas.


O que chama atenção na apresentação da Anitta na TV brasileira e no programa Satuday Night Live TV americana: ampla e total visibilidade na semana santa, e apresentação de um simbólico afro religioso (trajando um fio de conta de Exu). Semana sagrada para os afros religiosos é vital, é período em que se reúnem as suas famílias de axé para serem abençoados, e para marcarem a memória de seus axés. Almoçando comida de santo como vatapá, caruru, feijão de leite, mulato velho frito, moqueca e outros quitutes partilham identidades, histórias de família, e histórias dos orixás com humor e afeto. A semana santa é também parte do calendário afro, não é apenas parte do calendário chamado cristão. Poucos sabem disso, então é bom lembrar. Na Sexta-feira Santa, o Candomblé realiza o ritual da Kura (ou Nkula), também conhecido como fechamento de corpo. É um ritual de proteção e purificação profunda, onde pequenas incisões sagradas são feitas no corpo e seladas com pó de ervas consagradas. A sexta da semana Santa é também de Oxalá, sendo santa de diferentes formas para os afros, incluso os ritos na quimbanda. A época não poderia ser mais propícia.


Mas por que meia noite apresentação num domingo de Páscoa no programa do Huck

incomodou tanta gente?


Primeiro porque desconhecem a importância da semana no calendário afro, tendem a

compreendê-lo sob o ponto de vista cristão do calendário. Mas o que incomoda mesmo é a pomba gira e sua empatia, sensualidade e presença no mundo aparecer no horário nobre da televisão brasileira, e em plena páscoa. Deu saudades da mãe Cacilda de Assis, mãe de santo que incorporava seu sete da Lyra, que com seu poder trazia o transe e a cura ao vivo e a cores na televisão brasileira no programa Buzina do Chacrinha na rede Globo no ano de 1971. Muitos entravam em transe e dizem as “boas línguas” que muita gente passava mal em casa assistindo o programa. Uma mulher que recebia exu, questões de gênero sempre foram e cada vez mais tem se tornando a grande questão do camporeligioso brasileiro, levando as encruzilhadas sociais que afligem nossa sociedade.


É o medo da pomba gira. O receio e o fascínio pela mulher que sai à meia-noite na rua, e

que não precisa de dono. Autonomia feminina ela está presente no mundo do trabalho, e no sustento das relações familiares, em geral, de grande parte das famílias brasileiras.

Porém essa mulher não pode se situar fora do lugar familiar que ele é reservado, e não

deveria, na mentalidade cristã conservadora, a centralidade do homem nessas relações. A pomba gira provoca, instiga, e ela não tem dono. A liberdade dá medo, a liberdade mostra a sensualidade, e mostra que a rua é lugar que pomba gira ocupa. Sexo, sensualidade, poder e rua, são inimagináveis nesse léxico cristão. Por mais que uma mulher cristã sustente toda a família, que muitas vezes tem abandono parental, o homem é considerado o “esteio da casa”.


Essa visibilidade toda no programa de grande audiência causou reboliço no campo cristão e traz o pior da intolerância na cena pública, mas ao mesmo tempo mostra uma resposta clara nos meios digitais contra a intolerância e as homenagens a seus espíritos e suas visões de mundo. Homenageia a umbanda, as entidades e o poder feminino, que para Anitta estão entrelaçados nessa virada de carreira. Não é só estética como aparência e traço, mas é o político que se pode produzir na estética, a partir do momento em que se mostra uma espiritualidade sob o tambor.


Esse é o novo álbum Equilibrium, em que Anitta homenageia com um funk afro a pomba

gira, o Exu mulher e ao espírito das mulheres que admira como Carmen Miranda. Sete

ondas, sete saias, sete encruzilhadas, pular sete ondas sob estética afro pop.




Joana Bahia - AxéNews

Joana Bahia

Professora titular da UERJ. Coordenadora do Nuer (Núcleo de estudos da religião). Autora do livro O Rio de Iemanjá: um olhar sobre a cidade e a devoção, publicado pela editora telha em  2023 e vários artigos sobre religiões afro brasileiras, em especial Omoloco, umbanda, candomblés, Iemanjá e expansão das religiões afro brasileiras no mundo... [+ informações de Joana Bahia]


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